Livro de Sacha Calmon analisa como e porque surgem os mitos na civilização judaico-cristã
Publicado em 19/mai/2010

Em obra lançada pela Editora Noeses, o renomado advogado analisa o pensamento de 30 estudiosos e o opõe a uma série de mitos criados pelas religiões reveladas (judaísmo, cristianismo e islamismo).
Como e por que surgem os mitos que embasam o que se convencionou chamar de “civilização judaico-cristã” ou, simplesmente, “civilização ocidental”. Esse tema, que intriga a mente humana há mais de cinco mil anos, é analisado nas quase 600 páginas do livro “A história da mitologia judaico-cristã”, editado pela Noeses e de autoria do renomado advogado Sacha Calmon Navarro Coêlho.
Uma preocupação com a aflição das pessoas diante do pós-morte e o terrível medo do inferno e de demônios, aliado a uma vida de leitura de textos sobre Direito, Religião e História, levou Sacha Calmon a organizar um livro movimentando e interligando autores consagrados de modo a formar um conjunto interdisciplinar coerente. Em dez anos de pesquisa, o advogado percorreu o pensamento de 30 conhecidos estudiosos de Filosofia, História, Psicologia, Religião e Ética. Telhard de Chardi, Morgan, Jack Miles e Karen Armstrong são os mais citados.
Entre as conclusões do trabalho de Sacha Calmon está a de que “o Direito nasceu da religião e que a religião nos promete um final jurídico reles, ou seja, um julgamento em que seremos culpados ou inocentados e após o que viveremos eternamente no céu é no inferno”. Para o autor, “trata-se de um dualismo maniqueísta e perverso, indigno da ‘imensa bondade de um Deus minimamente justo’. A condição humana já é por si só complexa. Tamanho castigo nem o homem imagina para os seus semelhantes”.
E conclui: “precisamos cultuar desde a infância a não-violência, a solidariedade, a compaixão, a humildade, a coragem e o perdão, como quiseram Buda e Jesus. Uma sociedade religiosamente não-opressora, que não nos ameace com castigos virá na segunda etapa da civilização”.
Sobre a obra
Nas quase 600 páginas de sua obra, Sacha Calmon visita assuntos polêmicos, como a oposição entre a criação do homem já adulto e sexuado, sem pai nem mãe, ao processo de evolução das espécies – neste trecho, o narrador é o jesuíta Teilhard de Chardin. O autor também passa pela evolução da espécie humana, que percorre 100 mil anos segundo estudos de Morgan, antropólogo americano – são 70 mil anos de selvageria, 20 mil anos de barbárie e 10 mil anos de civilização, que coincidem com o pastoreio, o sedentarismo e a agricultura às margens das bacias dos grandes rios (China, Índia, Mesopotâmia, Nilo). Segundo Calmon, “é uma história diversa da contada pela bíblia, com Gênesis, Noé, os patriarcas e o êxodo. Para a tradição judaico-cristã, desde Adão até hoje se passaram 5.800 anos, se tanto. Mas mesmo a pré-história bíblica é falsa. Abraão não podia ter camelos introduzidos na região 900 anos antes de Cristo. Testes a carbono de ossos de camelo provam a assertiva”.
Além da Bíblia, a obra de Calmon também aborda questões relacionadas à Tora, o livro sagrado dos judeus, chegando inclusive aos tempos modernos. O advogado explica que “dois autores judeus alegam que a Torá foi escrita por Josias em 640 AC. Nunca houve Israel no Egito e nem aconteceu o êxodo. A arqueologia prova que Jericó nunca teve muralhas (…) É curioso notar que depois do mito da fuga do Egito e das conquistas de Josué, o povo de Javé não venceu nenhuma guerra. Perderam para egípcios, assírios, babilônios, persas, gregos, romanos, bizantinos, árabes, islâmicos, turcos otonanos, até a recriação pelo ONU de Israel. Como se explica um Deus tão poderoso e milagroso e depois tão imprestável? É a força do mito”.
Outras controvérsias são apontadas pelo autor, que em determinado momento conclui: “Em suma o Direito e a Religião são técnicas de controle social que falam em virtudes mas dominam pela inflição de ameaças, penas e castigos”.
Sobre o autor
Advogado e professor, Sacha Calmon Navarro Coêlho é sócio titular do escritório Sacha Calmon – Misabel Derzi Consultores e Advogados. Publicou mais de 50 livros na área de Direito Tributário, especialmente o Curso de Direito Tributário Brasileiro (500 páginas).
Destaque entre os maiores advogados tributaristas atuantes do Brasil, Sacha Calmon é hoje professor-titular de Direito Financeiro e Tributário da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro); antes, foi por 30 anos (1974 a 2004) professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). É ainda ex-juiz federal, tendo passado em 1º lugar entre 1726 candidatos em 1986.
Sacha Calmon é doutor em Direito Público, presidente honorário da ABRADT (Associação Brasileira de Direito Tributário), presidente da ABDF (Associação Brasileira de Direito Financeiro), que representa a IFA (International Fiscal Association) e da Academia Internacional de Direito e Economia, sediada no Rio.
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A história da mitologia judaico-cristã
Sacha Calmon
Editora Noeses
600 páginas
R$ 99,00
www.editoranoeses.com.br
e-mail: noeses@editoranoeses.com.br
tel.: (11) 3666 6055







Comentários
Vicente Francimar de Oliveira
julho 28th, 2010 at 7:17
Fortaleza, 28 de julho de 2010.
Prezado Sacha Calmon,
Também estudioso dos assuntos de religião, tendo escrito “O Centurião de Cafarnaum”, ensaio sobre censura e propaganda pró-Império Romano na redação do Novo Testamento”, e bacharel em direito, aposentado no cargo de Diretor-Geral do TRE-DF, e há 17 anos residindo em Fortaleza, foi com muita satisfação que li, e reli diversas passagens, de seu “A História da Mitologia Judaico-Cristã”. Parabéns pela sua coragem ao abordar um tema tão delicado e complexo.
Alguns leitores poderão ficar magoados com certas frases contundentes a respeito das religiões nas quais fomos criados e educados. Meus aplausos se dirigem principalmente ao seu trabalho hercúleo de haver compilado as opiniões de mais de 30 autores sobre o mesmo tema, o que demonstra que este notável brasileiro de sobrenome de um também ilustre jurista (Pedro Calmon) não é uma voz isolada a pregar no meio do deserto.
Aplausos ao parágrafo final de sua obra, ao desejar que as pessoas sejam mais felizes, livrando-se do medo em relação “à promessa tenebrosa do inferno”. Foi precisamente este medo que me levou a estudar com afinco o fenômeno religioso, e ao final, nascido eu e educado no catolicismo romano, abandonei a crença de meus familiares. Hoje sou judeu, por conversão. Um judeu “light”, com muitos “porém” e “contudo”. Ainda bem que o judaísmo não é uma religião essencialmente dogmática. Não prega o inferno eterno – o “guehinon” judaico corresponde ao purgatório do catolicismo, esse mesmo que a reforma protestante em má hora aboliu, deixando o homem perplexo ante o dilema: gozo eterno no Céu, ou tortura eterna no inferno. Parabéns. Francimar de Oliveira.